< Miradouro da alma: maio 2006

31 maio 2006



Em repeat na minha graphonola:



Tobias Froberg - Grace




Paris #04








Dá-me


Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra

Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!


Carlos Edmundo de Ory
(tradução de Herberto Helder)


30 maio 2006



Palavras encontradas


As memórias são uma coisa boa se não tivermos de lidar com o passado

in moriana.blogspot.com


29 maio 2006



Paris #03








De cada vez



Contínua realidade que me sorves os dias
como hei-de responder-te se vives incluída
dos meus olhos abertos nas ávidas e frias
pedras incertas vida

prisioneira do espelho que embacias
de cada vez que a turva suicida
torna ao morrer visíveis
as formas com que comes os meus dias


Gastão Cruz


24 maio 2006





Paris #02


E lembro-me em meia-amargura
Do passado, do distante, E tudo me é solidão ...
Que fui nessa morte escura?
Quem sou neste morto instante?
Não perguntes ... Tudo é vão.

Fernando Pessoa




Na minha graphonola



The Raconteurs
Broken Boy Soldiers





Desfaze a mala feita pra a partida !


Desfaze a mala feita pra a partida!
Chegaste a ousar a mala?
Que importa ? Desesperar ante a inda
Pois tudo a ti iguala.

Sempre serás o sonho de tim mesmo.
Vives tentando ser,
Papel rasgado de um intento, a esmo
Atirado ao descrer.

Como as correias cingem
Tudo o que vais levar!
Mas é só a mala e não a ida?
Que há de sempre ficar!


Fernando Pessoa


23 maio 2006



Na Ilha Por Vezes Habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


José Saramago




Paris #01






22 maio 2006




"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos"

Constantemente me encontro com esta frase do "Principezinho" do Antoine de Saint-Exupéry; de cada vez que acontece sinto-me na obrigação de um auto-exame oftalmológico à alma na esperança de manter a visão clara e límpida.

20 maio 2006



Na minha graphonola, ao entardecer:



Gotan Project
Lunatico



19 maio 2006



Bom fim de semana



Marc Chagal
La vie





Encontro (excerto)



Há noites
em que me encontro
em que me sei
por momentos ser eu

[...]
basta um qualquer sinal
uma luz, um cometa
uma voz
um rasgar na escuridão,
e encontro-me.
[...]
eu, hoje,

sem lágrimas
sem tempo
contas perdidas
nos papeis outrora escritos
quando esperava grandiosidade
e amor
e na mesa do café
deixei um adeus e uma vida
sim, aí chorei
e extinguiu-se o passado.
[...]
- carpe diem!
e eu gozo a noite
não é contradição
mas de verdade
já não conheço o dia

não me sei a haver solstício
ou renascer
de sol que perdi há já muito
[...]
por vezes sei-me contente
eu que toquei já a grandiosidade
e agora sou nada
perdi a lua e o sol
e dos meus astros apenas
restam as estrelas


no céu pinto rastos de cometas
desenho constelações
e recito ao luzeiro
canções de embalar

paro,
sento-me e espero:
creio um destes dias
me encontre de novo
e numa dessas vezes
talvez perceba mesmo
quem sou de verdade
porque aqui estou
e o que é o amor.

Versão integral in Palavras em troca




Caminhos #05






18 maio 2006



Cantar


Tão longo caminho
E todas as portas
Tão longo o caminho
Sua sombra errante
Sob o sol a pino
A água de exílio
Por estradas brancas
Quanto Passo andado
País ocupado
Num quarto fechado

As portas se fecham
Fecham-se janelas
Os gestos se escondem
Ninguém lhe responde
Solidão vindima
E não querem vê-lo
Encontra silêncio
Que em sombra tornados
Naquela cidade

Quanto passo andado
Encontrou fechadas
Como vai sozinho
Desenha as paredes
Sob as luas verdes
É brilhante e fria
Ou por negras ruas
Por amor da terra
Onde o medo impera

Os olhos se fecham
As bocas se calam
Quando ele pergunta
Só insultos colhe
O rosto lhe viram
Seu longo combate
Silêncio daqueles
Em monstros se tornam
Tão poucos os homens

Sophia Mello Breyner


17 maio 2006



Tortura


Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca






Marc Chagall
The Poet with the Birds





L'Amour Charnel


La chambre semblait sortir du corps.
La chambre sembalit sortir des plis
De la robe et des plis du corps.
La chambre semblait recevoir
Autre chose encore. - Tu disais:
Lorsque je partirai, je partirai loin
Et sans regrets. - La chambre était
Toute entière dans cet amas confus
De paroles, près de la robe, et
Dans ce paysage, qui disparaît
Vers le haut de tes cuisses.

Henry Deluy


12 maio 2006



"A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durantes os breves instantes em que fechamos os olhos"

José Eduardo Agualusa
O vendedor de passados




"Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância"

José Eduardo Agualusa
O vendedor de passados


11 maio 2006



Paris pela janela



Marc Chagall
Paris par la fenêtre





Poemas para a noite invariável


IV

Gasto-me à espera da noite
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sob os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite


Luiza Neto Jorge, A noite vertebrada


10 maio 2006



Balança


Com pesos duvidosos me sujeito
A balança até hoje recusada
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram
O sonho fugi disso, o desespero
De prender violento ou descuidar

A sombra que me vai medindo os dias;
folho a vida tão pouca, o ruim corpo,
traição natural e relutâncias
pondo o que há de amor, a sua urgência

O gosto de passar entre as estrelas
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.


José Saramago
Os Poemas Possíveis




Miradouros #10








09 maio 2006



"Diante de um certo quadro começava a compreender que não é a perfeição quase sobrenatural do conjunto que me atinge. Mas antes um certo olhar, mudo, mas carregado a ponto de berrar o limite, a impotência, o tempo"

Lorenzo Mattotti / Lilia Ambrosi
in "O homem à janela"


08 maio 2006



"As recordações são aquilo que nos aquece a alma. Mas também despedaçam o nosso coração."

Haruki Murakami - "Kafka à beira-mar"


07 maio 2006



A filha da lua



Klimt - Mother and child


Oh minha mãe lua,
que numa noite encantada
me senti, como num conto,
parte do teu belo luar,
Deste-me os sonhos
e por entre suaves beijos
desses finos lábios de lua
embalaste-me em doces sonos
no calor do teu colo,
Sorvi todo o teu amor
desse coração quarto-crescente,
em sofregos goles,
que fizeram o meu crescer.
Alumia-me esse brilho
de doce olhar que só
A lua cheia pode ter,
cada dia do meu viver
E em ti, obrigada,
minha querida mãe
porque num dia lindo
me fizeste filha tua,
obrigado, porque
desde esse dia, sou
a filha da lua.

F.





D. Quixote foi-se embora







D. Quixote foi-se embora
Acende mais um cigarro, irmão
inventa alguma paz interior
esconde essas sombras no teu olhar
tenta mexer-te com mais vigor
abre o teu saco de recordações
e guarda só o essencial
o mundo nunca deixou de mudar
mas lá no fundo é sempre igual

E agora, que a lua escureceu
e a guitarra se partiu
D. Quixote foi-se embora
com o amigo que a tudo assistiu
as cores do teu arco-íris
estão todas a desbotar
e o que te parecia uma bela sinfonia
é só mais uma banda a passar

A chuva encharcou-te os sapatos
e não sabes p'ra onde vais
tu desprezavas uma simples fatia
e o bolo inteiro era grande demais
agarras-te a mais uma cerveja
vazia como um fim de verão
perdeste a direcção de casa
com a tua sede de perfeição

Tens um peso enorme nos ombros
os braços que pareciam voar
tu continuas a falar de amor
mas qualquer coisa deixou de vibrar
os teus sonhos de infância já foram
velas brancas ao longo do rio
hoje não passam de farrapos
feitos de medo, solidão e frio


Jorge Palma


05 maio 2006



"O presente puro é o progresso contínuo do passado que morde o futuro. Na verdade, todas as sensações são já memória."

Haruki Murakami - "Kafka à beira-mar"


04 maio 2006



Mas que sei eu...




Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra fogueira qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
as coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy Belo


03 maio 2006





"Aquilo que mais me desgosta são as [pessoas] que não têm ponta de imaginação."
Haruki Murakami in Kafka à beira-mar




Opening Stanza from Choruses from "The Rock"

The Eagle soars in the summit of Heaven,
The Hunter with his dogs pursues his circuit.

O perpetual revolution of configured stars,

O perpetual recurrence of determined seasons,

O world of spring and autumn, birth and dying

The endless cycle of idea and action,
Endless invention, endless experiment,
Brings knowledge of motion, but not of stillness;
Knowledge of speech, but not of silence;
Knowledge of words, and ignorance of the Word.
All our knowledge brings us nearer to our ignorance,
All our ignorance brings us nearer to death,
But nearness to death no nearer to GOD.
Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
The cycles of Heaven in twenty centuries
Bring us farther from GOD and nearer to the Dust.

T.S. Eliot
The Rock





Sons da Noruega, na minha graphonola:


Anja Garbarek
Briefly Shaking




O tempo morre comigo





Como colher em sonhos
Um pedaço do vermelho crepúsculo!
Como colher com pinças o inquieto
E guardá-lo em segredo numa urna!
Quem projectará a maquinaria, cruel dispositivo
Bisturi cirúrgico de precisão extrema?
Captura-me esse troço da branca alvorada
E deste ensanguentado crepúsculo que me queima as retinas
Como surpreender a nuvem com certeiro bisturi
E proceder a pequenas incisões no seu coração!
Quero ver o que sai das nuvens feridas de morte
Eu estou ferida de morte
E verto sal e lágrimas
A dor por detrás das minhas pálpebras
Diz-me que o tempo morre comigo
E a minha urna está vazia
De alvores, ocasos e nuvens

Nuria Ruiz de Viñaspre


02 maio 2006



Palavras minhas


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Tamen