< Miradouro da alma: Fevereiro 2006

28 fevereiro 2006



Les mots


Les mots
Les motsfruits les motsjus les mots à mordre les mots à tordre les mots à jouir les mots à cuire les mots voyage les mots
Des nomes
Voici des noms: Nerf-Kid = Tangerina = Kalou on Ice = Oli = Salive = Henriette Rock = A. Petit-Pieds = Peter Schlagger = mon fruit à mordre, toutes les heures
L'astronaute halluciné l´exit et l´après-exit l´écriture un espace les mots fous mordre les fous mordre les mots qui bavent du corps
Les textes le même texte toujours un autre même texte
Le mirage du corps déserté je l´observe
Un texte de sable qui flotte avez les grands vents l´eau la mer et l´océan plus vaste
L´écritures humide des algues sous les marées de lune la mer marchée dans la transpiration du sel des fruits de l´eau les fruits de mer
Les fruits de l´air
Un espace suicidaire une véranda la gare la ville le port la peau la peau
De nuit

Les Plus Grand Calligraphe - Al Berto




Travel Series #78



Praga
Igreja de S. Nicolau




Travel Series #77



Praga
Igreja de S. Nicolau




27 fevereiro 2006







O importante mesmo é nunca nos esquecermos de viver.








Travel Series #76



Praga
Igreja de S. Nicolau




Travel Series #75



Praga
Igreja de S. Nicolau




adeus, deixo-te a minha partida por fim
todas as manhãs
à hora do noticiário good bye my sweet friend
I´ll write you again sentado nos rochedos
de um epitáfio celeste.
adeus.


Luís Adriano Carlos

26 fevereiro 2006





Estrada


Passo muito depressa no país de Caeiro
Pelas rectas da estrada como se voasse
Mas cada coisa surge nomeada
Clara e nítida
Como se a mão do instante a recortasse

Sophia de Mello Breyner Andresen



25 fevereiro 2006



Pensamentos de Morpheu







24 fevereiro 2006





O comentário da Textura ao meu devaneio sobre o poema dela, também ele um poema, merece aqui lugar de destaque:


textura said...

Posso pensar em acontecimento
Pois a vida só é quando nos acontece
Traçar a verdade
Dizer arrebatamento
ou ápice
São palavras de surpresa
De um somático calor-frio do peito
Que que tal chuva
Que é da natureza
E leva o que não interessa para longe dos olhos
Traz o cheiro de ontem
da terra
E suspiro de hoje
Do fundo do mar do céu

Quando dizes noite,
Não gosto da possibilidade de adeus
As estrelas dão a volta ao espaço e
hão-de voltar
ou as nuvens
hão-de ceder
uma clareira
à lua



E das palavras dela outras me surgiram:



Da surpresa sobra-me
uma pequena réstia
que o tempo levou quase tudo
nos dias da negritude
ficou um pequeno pedaço de surpresa
disfarçada de verde

Que a surpresa o seja
só quando o sentido
a perfizer e então
saberá de novo
ao sal das almas que crêem

No entretanto somo
multiplico
subtraio
e divido
todas as palavras que sei
e crio histórias que me contam
as chuvas de que falas
e os cheiros da terra de ontem
e pesco letras
de azul profundo
(como bem sabes
a minha cor preferida)
nesse mar-céu de anseios

Já não as quero
cansam-me de passado
rasgo-as, as histórias
são milhares, os pedaços ao vento
estilhaços de letras desavindas
Escrevo de novo, tudo
mas sem histórias, quero apenas
deturpar
a virgindade das folhas
e repito em todas
quatro palavras pecadoras:


dias


noites


paixão


(deixo uma linha em branco, intencional)


e escrevo o teu nome.




Bom fim de semana








Palavras de outros:


O homem do piano

o branco e o negro. o silêncio inteiro. profundo.macio.palpável.
e a cabeça vazia. só mãos. as mãos e o corpo. agora nu. exposto. próximo dela. da morte. respirava-lhe o hálito. denso. doce. dardo a espetar-lhe um dedo de aço nos olhos. que fechou.
atacou então o piano. nada de clássicos. nada que antes existisse. uma orgia de sons.de gritos. de bemóis. um festim. uma gruta.
e o sexo a dançar-lhe nas mãos. e tocou. tocou até tocar sanguíneamente o tambor da guerra do fogo. e devagar porque morria depressa e todos os gestos eram de fome começou a lambe-la. como um cão como um lobo sedento e ávido e pária vadio e selvagem. primeiro a raíz dos cabelos fulvos como o sangue enrolados na testa arrepiados no contorno do rosto. desceu aos olhos e selou-os com fios de baba. caiu-lhe na boca. mergulhou-a de água e fez-lhe um ninho de saliva desde a raíz dos dentes à seara da língua agora dançarina. desvairada serpente sem véus nem espadas. apenas boca. profunda. molhada.
o mar o mar o mar a navegar-lhe a garganta. depois a vereda. o pescoço inclinado abrindo
sulcos e angulos e vales de pele escorregadia.
e escorregou lentamente sobre os seios altos. retirou a forma triangular com beijos de ostra.bebeu-se no suor que orvalhava como chuva na pele. e parou.

o coração atacava os ouvidos. tocava staccattos intensos. bravios. desconfortáveis. zumbidos de pássaros em cio a cercar-lhe os ombros. e a morte a aproximar-se. altiva. urgente. indomável. gélida. surda.

(mozart entra e toca. toca-me nas costas toda a lacrimoza)

e sentou-se. bem em cima do piano. alargando-me o olhar para o meio das pernas. que abriu. com a tenra teatralidade de um godot quase terno e desesperado. e ali estava a minha casa.naquele sexo ostensivamente vermelho de verão. era dia de colheita. os morangos cresciam. rosados e palpitantes. via-lhes a textura de língua sedenta e o cheiro inquietante.
ébrios de um vício opalino estremeciam à minha frente como chamas. queria tocar. tocar-lhes. atirar-me inteiro naquele dentro que era chão.
e iniciei-me então. ansioso e redondo abri-me como fenda como asa sabendo que a seguir morreria. quando ela fechasse as pernas. o tempo. o silêncio. o piano. tudo. revi em segundos uma vida de enganos e de facas de retornos e de falsos mapas e sem magoa nem medo entrei. todo.
entumescido. violento. aceso. nu. a sentir-me maduro. a explodir. a vir-me. como a chuva. como o mar sobre a areia. em noites de temporal.
entrei todo.
e ela fechou as pernas.
anoiteceu.
e o tempo caiu. avé maria de shubert. morri.
e o piano tocou. sozinho.

do blog Piano




Travel Series #74



Praga
Torre Petřin





Escrever


Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?



Irene Lisboa


23 fevereiro 2006



Na minha graphonola:




Ballads in blue
Colectânea enja





Amargo estilo novo



Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre entre os dedos
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem


António Gedeão




Travel Series #73



Praga
Art Noveau


22 fevereiro 2006



Divagação


Divagação sobre um poema da Textura, que aqui transcrevo:


O poema da Textura:

"As letras são capazes de
Minimalismos
As janelas
Ajudam a palavra

Basta falar de frente para um vidro embaciado
E depois escrever-te
Na transparência

Tem(s) é de ser só uma vez
E só uma palavra"



A divagação:

E que letras somas tu
nas gotículas quentes
que depositas sobre
a transparência do vidro?
Será, numa palavra
só como queres,
o calor de um olá
a esperança de um até
ou o frio das noites
sem estrelas ou luar
predito num gélido e seco
adeus?




Storytellers


Gosto de contadores de histórias, dos seus traços feitos sobre as fotografias de cada dia em que mais ninguém repara, uma cara, um sorriso, uma lágrima, um gesto, um ser humano.
Precisa-se urgentemente de quem saiba ver o mundo, sim, tão simples como isso e no seu olhar fazer sentir o bater do coração.




A alternativa já está on-line, em qualquer lugar!








Travel Series #72



Praga
Museum Bedricha Smetany





A matéria das palavras




Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



Ana Hatherly
in "O Pavão Negro"


21 fevereiro 2006



Na minha graphonola:



Quasi una fantasia
Maria João Pires





Apocalipse



Eu sou a fúria em que me abato,
sou o furacão inabalável e feroz
sou aquele que vem para destruir.
Cuida-te mundo, na tua tranquilidade:
eu trago a guerra à tua paz,
trago a doença à tua saúde,
eu sou a loucura à tua sanidade.
De ti não sobrará nem o pó,
porque eu cuspo o fogo da dor...
Em mim, o choro, o sofrimento,
a agonia intensa, o desalento.
Foge de mim que te perdes,
se ainda crês, desespera,
se esperas, deixa de acreditar.
Após eu, só o nada subsistirá.
Em mim me precipito e caio
no meu ar me sufoco e morro
Em mim o abismo, a escuridão,
Cuida-te mundo, eu venho aí!






Travel Series #71



Praga
Praça da Cidade Velha
Casa Stroch







[...]
I have fallen a long way. Clouds are flowering
Blue and mystical over the face of the stars.
Inside the church, the saints will be all blue,
Floating on their delicate feet over cold pews,
Their hands and faces stiff with holiness.
The moon sees nothing of this. She is bald and wild.
And the message of the yew tree is blackness - blackness and silence.

Sylvia Plath




Travel Series #70




Praga
Praça da Cidade Velha
Casa dos Minutos





Toda a metáfora



Toda a metáfora nos contém: de nós é feita
em um pedaço e nada mais. Como
se fôssemos tragados pela força
de seu poder desnudo e
de nós morrêssemos de súbito.

Toda a metáfora nos sustém / onde
não estamos como se
estivéssemos. E sempre
nos guarda a margem a que falta o rio
para nos banharmos. E além,

muito além de para lá, talvez
outros nos banhemos em
um rio sem a margem. Toda
a metáfora nos mantém
um pouco aquém
dela e de ninguém.


Luís Adriano Carlos


20 fevereiro 2006



Travel Series #69




Praga
Camara da Cidade Velha
Relógio Astronómico






Do not Stand at my Grave and Weep


Do not stand at my grave and weep,
I am not there, I do not sleep.
I am a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight.
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there -- I do not die.


Mary Frye




Travel Series #68




Praga
Camara da Cidade Velha
Relógio Astronómico




18 fevereiro 2006




Doem-me as ilusões
Tão grande é a distância da realidade.

Dói-me a realidade
Tão longa é a distância das ilusões.



Carlos Veríssimo


17 fevereiro 2006



Não sei quantas almas tenho



Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa




Bom fim de semana














E por entre os sons propagados pela minha graphonola caiu-me este extraordinário "Dance Rock'n'Roll", uma emulsão musical em aromas AIR definitivamente a não perder:



Dance Rock'n'Roll
Chiara Mastroianni & Benjamin Biolay


Dance rock n' roll
Dance rock n' roll
Dance rock n' roll
Dance rock n' roll
Si tu m'aimes
M'aimeras-tu toujours ?
Voilà, voilà
Si tu m'aimes
M'aimeras-tu d'amour ?
Voilà, voilà, voilà
(It was nice takin' to you)





Na minha graphonola:


Chiara Mastroianni & Benjamin Biolay
Home







Não gosto de janelas fechadas absortas pela escuridão, lembram-me o gelo pétreo em que se encerram tristezas, dúvidas e noites eclipsadas de astros: não quero ir por aí, ficar aí, não lhes pertenço, não as quero. Fujo para a luz, corro as cortinas, subo as persianas, acendo um cigarro e contemplo o dia ou a noite sentado no parapeito do meu miradouro.



16 fevereiro 2006



Diálogo


Minhas palavras são a metade de um diálogo obscuro
continuando através de séculos impossíveis.

Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.

Nossas perguntas e respostas se reconhecem
como os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.

Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa...

E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.



Cecília Meireles




Na minha graphonola:



The Stokes
First Impressions of Earth





Impossível



Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.



Adolfo Casais Monteiro




Travel Series #67




Praga
Loreto




15 fevereiro 2006






Il mondo è nato dell'utupia di alcuni, la pace solo puo nascere del credere di molti.









Broken by the silence that echoed in my heart, I couldn't help waving when the waves rushed my way. And the world tilted over, I saw in my dreams--things aren't the way I hoped they would be. You are so kind to be civilized--don't think that I haven't noticed--I've been too sad to think and too sick to care, but someday I'll meet you in the cold midnight air--I've been a ghost in houses I've loved--I've been a stranger to heaven above, but as for the world below, this is the one I know, my poor beloved home.

Ghost Waltz





Travel Series #66



Praga
Loreto





Comunicado:





Às 00:00 horas de hoje terminou oficialmente mais um dia de mercantilismo.






14 fevereiro 2006



Contribuição anónima:


Do Estilo


Estilo magnético, evaporante forma,
placa longa ao longo do planeta,
gravitação da onda,limpo odor
que exala o movimento do antebraço.
A mão segura,dicurso seu, e sublime
fragor da imagem e da marca. Estilo
de condensada onda,ondulante
no encontro do espaço, não comigo,
em se passando leve,já memória,
que tudo em mim se quebra de repente.
Estilo destilante.

Adriano Carlos





Para alguém amigo a quem os sorrisos dos dias
lhe fugiram hoje numa lágrima escondida num
bom dia que de todo lhe parece escapar e difícil
de se tornar num dia bom. Há que não esquecer
que os amigos não existem só para os dias que
nos correm bem; a sua existência prova-se mais
importante nos dias tristes. É como prova dessa
amizade e apoio que tive em dias que me foram
cinzentos de tristeza que lhe dedico este poema:




Escrevi este poema

no tempo mínimo

que basta para te dizer

que os sonhos perdidos

são apenas filhos de manhãs tragadas

na chuva dos dias idos

E digo-te que mesmo que nada

te fale o passar do tempo

não te faltarão sonhos e

dias pintados

de azul sem cinza

e amizade em brilhos de sol

em cada novo amanhecer



os fins são como tu sabes o começo

de novos princípios.





Na intimidade das cores impossíveis




Praga


Cada minuto é apenas um momento musical, sem memória..
E a saudade não vem de longe, é como uma cor outonal na paisagem e muda como um poente...Não há futuro. Tudo é paisagem para os nossos olhos calmos e líricos. Sentimos a intimidade das coisas
impossíveis.


Cristovam Pavia








Daily dawns another day;
I must up, to make my way.
Though I dress and drink and eat,
Move my fingers and my feet,
Learn a little, here and there,
Weep and laugh and sweat and swear,
Hear a song, or watch a stage,
Leave some words upon a page,
Claim a foe, or hail a friend -
Bed awaits me at the end.

Though I go in pride and strength,
I'll come back to bed at length.
Though I walk in blinded woe,
Back to bed I'm bound to go.
High my heart, or bowed my head,
All my days but lead to bed.
Up, and out, and on; and then
Ever back to bed again,
Summer, Winter, Spring, and Fall -
I'm a fool to rise at all!


Dorothy Parker


13 fevereiro 2006



Ainda as palavras...

Senti-me rodeado de milhões de páginas abandonadas, de universos e almas sem dono, que se afundavam num oceano de escuridão enquanto o mundo que palpitava fora daqueles muros perdia a memória sem disso se aperceber dia após dia, sentindo-se tanto mais sábio quanto mais esquecia.

in " A sombra do vento" de Carlos Ruiz Zafón




O magnetismo das palavras


No livro "A sombra do vento" de Carlos Ruiz Zafón, há uma frase que diz mais ou menos isto: as palavras que nos encantam nos livros agradam-nos porque são o espelho do que já temos no nosso íntimo, porque nelas encontramos o reflexo dos nossos sentimentos.
Este, confesso, foi um dos melhores livros que já li e que recomendo vivamente a toda a gente. Curioso agora que penso: li-o porque mo emprestaram, com a mesma recomendação (em nada exagerada, é mesmo livro extraordinário), já o ofereci a várias pessoas e por estranho que pareça não o tenho na minha biblioteca; um dia destes tenho de o voltar a ler.




Travel Series #65



Praga
Camara da Cidade Velha





Fechei à chave


Fechei à chave todos os meus cavalos
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça - incorruptível


Sophia de Mello Breyner Andresen

10 fevereiro 2006



Sobre a polémica relativa aos cartoons de Maomé


Repugna-me toda esta discussão em torno da liberdade de expressão quando o que está em causa na verdade é a ofensa gratuita. A liberdade de expressão deve sempre esbarrar no respeito mútuo independentemente de raça, credo religioso, crença política, cor de pele ou pura e simplesmente de opinião. Que me desculpem os puristas do absolutismo da liberdade de expressão (e eu defendo completamente que exista a liberdade de expressão pois é um dos principais pilares do nosso existir social) mas não posso aceitar que em nome de uma pretensa liberdade de expressão possamos ofender tudo e todos tendo meramente por base a irracionalidade mais básica da falta de respeito. São vários os exemplos tristes, com que a história nos presenteia, do não respeito mútuo; só a título de exemplo: inquisição, movimento nazi, revolução cultural chinesa, movimento taliban. Os resultados são mais do que conhecidos e vendo bem todos estes processos acabam no seu desenvolvimento por se associarem posteriormente à falta de liberdade de expressão.
Ignorância só alimenta ignorância, tal como o radicalismo de uns é a base do radicalismo de outros. O respeito e a tolerância pelos outros são os melhores fundamentos para que possamos exercer sãmente esse direito que tanto preso e que se chama liberdade de expressão.





Bom fim de semana








Na minha graphonola:


Pearl Jam - Hard to Imagine

Paint a picture, forty shades of grey
Light your pillow, lay back, watch the flames
I tried to tell a story but
No one would listen that long
It's hard to imagine, it's hard to imagine...

Fuck tradition, no one's safe for harm
Wait a little, cup and curse these arms
After having seen all that they saw
It's hard to imagine, it's hard to imagine...

Things were different then
All is different now
I tried to explain, somehow...

Things were different then
All is different now
I tried to explain
I hope this works somehow...

Things were different then
All is different now
I tried to explain, somehow...




Travel Series #64



Praga






homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias esgueram esta parede
intransponível

caminham vergados no zumbido dos ventos
com os braços erguidos - cantam

a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades

escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios

adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse

no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios

prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de um fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro


Al Berto - Horto de Incêndios




Poesia é coisa clandestina



Poesia é coisa clandestina
Feita no húmus da sombra quieta,
Mesmo quando o sol a ilumina
Ela se esconde, faz-se menina
Em faixa silenciosa de um só verso
E apenas se a paixão sobe e domina,
O amor, o ódio, o medo, a liberdade
Grita ela seu grito, berra seu berro.

Mesmo aí continua clandestina
Pois seu grito fere o vento
Em piano muito acima da cidade
E a multidão pega o dilúvio,
O estranho ruído, o tom, a rima,
A queda súbita de ritmos
Descendo como chuva e como chuva
Entrando pela terra em nascimentos.

Poesia é coisa clandestina
Como o umbigo, o ventre, a semente,
Como o toque do sexo na vagina,
Como o pouso do sonho sobre a gente.

Poesia é fogo clandestino
conservado no laivo da noite,
Inquieta paciência de menino,
Tonteira lúcida, vôo sem asa, açoite
Tombando sobre as sílabas pressagas,
Poesia é gosma, lama, terra,
Fonte, correnteza, é água
Do batismo, é água em jorro
Permanente de entrega, destino

De estar no ser e ser o ser, repousa
Na lava rubra descendo o morro.
Poesia é claro desatino,
Poesia é dar o nome a cada coisa.


Antonio Olinto


09 fevereiro 2006




A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga




Travel Series #63



Praga
Ponte Charles






Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.


Fernando Pessoa


08 fevereiro 2006



Travel Series #62



Praga
Ponte Carles






Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha


Jorge de Sena




E por vezes



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão-Ferreira


07 fevereiro 2006



Na minha graphonola:


Anja Garbarek
Briefly Shaking






Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...


Fernando Pessoa






Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.

Fernando Pessoa





Travel Series #61




Praga
Catedral de S. Vito







Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais – um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto.

in "
Pedro lembrando Inês" - Nuno Júdice




You Are Never Ready



In four minutes you will be gone and I must to tell you why.

When a star crashes, the angels are electrified.
Your life changes in ways you can't imagine.

When your dreams are perfect, they run like machines and leave you dizzy.
When you first discover you're dying, everyone seems to be saying goodbye.
When your dreams are perfect, they run like machines.

You must change your life. You are never ready.

There are people you have to leave behind, they just dirty up your mouth
they don't value your treasure.

You fall down, you kiss up, you love them, it's not enough.
They're nothing special and you're such a gift.
If you had no magic here you'd be just like everyone else.
Imagine the tragedy.

Love is like crying like writing like dying you've got to do it alone.

I know it's tragic to be tender
I know it's dangerous to be kind
I know it's vicious to care.

Listen to me, I know what's going to happen to you.

You don't need a window, you need a fire escape,
you'll need a skylight to get to where you're going.
I can't tell you where.

And you dream that you are hollow
and you dream that you are whole
reconstruct what you remember
and it comes out in pieces.

Those below you can't hold you up
everyone is gone gone gone
everyone is gone gone gone.
Learn to swim alone learn to fly.

Cast them off like long rope and learn to swim the dark water alone.
Look up to the stars stars stars and know that this is your sky now.

Lift your arms and go
step forward in Nureyev leap
blink fast and whirr over streets
hover over trees
speed past taxis
don't even bother to wave
at the children who watch you
awestruck
brushing past skyscrapers
and looking up up
slip off the long skirt
that slows you down
and don't look back to watch it
billow to earth
tell the cool jets and Superman
that you're passing them
feel your hair stream back
wind blinding you
forcing your dry mouth open
no one can touch you now
get out of this fucking world
as fast as you can.


Nicole Blackman


06 fevereiro 2006



Na minha graphonola:


Vincent Delerm
Kensington Square





Daily dawns another day;
I must up, to make my way.
Though I dress and drink and eat,
Move my fingers and my feet,
Learn a little, here and there,
Weep and laugh and sweat and swear,
Hear a song, or watch a stage,
Leave some words upon a page,
Claim a foe, or hail a friend -
Bed awaits me at the end.

Though I go in pride and strength,
I'll come back to bed at length.
Though I walk in blinded woe,
Back to bed I'm bound to go.
High my heart, or bowed my head,
All my days but lead to bed.
Up, and out, and on; and then
Ever back to bed again,
Summer, Winter, Spring, and Fall -
I'm a fool to rise at all!


Dorothy Parker





Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De, que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.


O guardador de rebanhos
Alberto Caeiro




Travel Series #60




Praga
Catedral de S. Vito





Travel Series #59



Praga
Catedral de S. Vito



05 fevereiro 2006




Vingo com versos os dias em que a tristeza me não deixou fazer nada
e há sempre tanto por fazer escrever um livro ouvir falarem desta poesia
que me é sempre mais estranha do que qualquer outra se dela falo a própria vida
porque aqui não se pode amar senão deixar-se amar
vingo com versos o vento que vai afastando o verão e segue o tempo
e o homem que nunca fui senão a pensar que só vive nestas páginas
traz na mão um ceptro de palavras futuras
porque aqui não se pode amar senão deixar-se amar
mas vingo primeiro as vozes azuis junto à praia onde sonhei poder ter-te
e sei que jamais saberei a verdade que seria desconhecer teu rosto
primeiro moreno depois de todas as cores onde te vi e te quis
porque aqui não se pode amar senão deixar-se amar
e vingo esperar pelo teu amor à porta deste coração que nunca viste
mesmo quando o mar me abraçava e devorava de beijos e tinhas ciúmes
que hoje todas tu retribuíram pelo menos um beijo àquele que amam
sem que deixem de sentir ciúme desse ciúme mais antigo
porque aqui não se pode amar senão deixar-se amar
vingo quem hoje do belo não tenha um corpo
e abra este livro e me ajude a cravar os versos no teu rosto
julgando esta vida mais estranha do que qualquer outra
porque aqui não se pode amar senão deixar-se amar.


Paulo José Miranda


03 fevereiro 2006



Na minha graphonola:



Every move a picture
Sign of life







Escucho resonar el agua que cae en mi sueño. Las palabras caen como el agua yo caigo. Dibujo en mis ojos la forma de mis ojos, nado en mis aguas, me digo mis silencios. Toda la noche espero que mi lenguaje logre configurarme. Y pienso en el viento que viene a mí, permanece en mí. Toda la noche he caminado bajo la lluvia desconocida. A mí me han dado un silencio pleno de formas y visiones (dices). Y corres desolada como el único pájaro en el viento.

Alejandra Pizarnik




Bueno fin de semana









Janela



Uma janela é suficiente
Uma janela para contemplar
Uma janela para escutar
Uma janela
parecida com o anel de um poço
a alcançar a terra na finitude do seu coração
abrindo para a vastidão desta bondade azul e repetitiva
uma janela limando as pequenas mãos da solidão
com a benevolência nocturna
do perfume de estrelas prodigiosas
janela de onde
é possível convocar o sol
para a alienação dos gerânios.

Uma janela ser-me-á suficiente.

Eu venho da terra das bonecas
de debaixo das sombras das árvores de papel
no jardim de um livro de desenhos
das estações secas das experiências incapazes na amizade e no amor
nas ruas sujas da inocência
dos anos das letras pálidas, crescendo, do alfabeto
atrás das mesas da escola tuberculosa
do minuto em que as crianças eram capazes de escrever ¿pedra¿
no quadro
e os estorninhos eufóricos voavam abandonando
a velha árvore.

Eu venho do meio das raízes das plantas carnívoras
e o meu cérebro está ainda inundado
pelo guincho aterrorizado de uma borboleta
crucificada por alfinetes
num caderno.

Quando a minha confiança estava presa pelo frágil fio da justiça
e na cidade inteira
os corações das minhas lanternas eram feitos em bocados
quando os olhos infantis do meu amor
estavam a ser vendados com o lenço negro da Lei
e dos meus ansiosos templos do desejo
jorravam fontes de sangue
quando a minha vida se tornara nada
nada
senão o tique-taque de um relógio,
eu descobri
que tenho
tenho
tenho de amar,
loucamente.

Uma janela ser-me-á suficiente
uma janela para o momento da consciência
da observância
e do silêncio.
agora,
a pequena nogueira
cresceu tanto que é já capaz de explicar
o significado do muro
às suas jovens folhas.

Pergunta ao espelho
o nome do redentor.
Não estará a terra fremente debaixo dos teus pés mais só que tu?
os profetas trouxeram a missão da destruição para o nosso século
não serão estas consecutivas explosões
e nuvens venenosas
a reverberação dos versículos sagrados?
Tu,
camarada,
irmão,
confidente,
quando chegares à lua
escreve a história dos massacres das flores.

Os sonhos precipitam-se sempre da sua altura ingénua
e morrem.
Cheiro o trevo de quatro folhas
que cresceu sobre o túmulo dos significados arcaicos.

Não seria a mulher
enterrada no sudário da expectativa e da inocência
a minha juventude?

Subirei a escadaria da curiosidade
para saudar o bom Deus que se passeia no telhado?

Sinto que o tempo passou
sinto que o momento é a minha parte das páginas da história
sinto que a mesa é uma distância fingida
entre as minhas madeixas
e as mãos deste triste estranho.

Diz-me
Que mais poderá querer de ti aquele que oferece a ternura de um corpo quente
senão a encarnação da sensação de existir?

Fala comigo
eu estou no refúgio da janela
eu tenho uma relação com o Sol.



Forugh Farrokhzad




Travel Series #58



Praga
Catedral de S. Vito





Travel Series #57



Praga
Catedral de S. Vito



02 fevereiro 2006




Está afundada na sua janela
contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível.
Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,
tal como o mar num quadro,
e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões.
Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste;
lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse,
e alguém há-de erguer a sua casa algures
sobre a poeira e o fumo de outra casa.
Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.
Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite
-ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-,
mas ninguém o viu, ninguém sabe,
nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas,
os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal,
embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.
Ela ouviu em cada passo a condenação.
Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela,
a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele,
como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus,
tivessem sido o verdadeiro limite,
o abismo final entre uma mulher e um homem.


Olga Orozco




Travel Series #56



Praga
Catedral de S. Vito





Travel Series #55



Praga
Catedral de S. Vito



01 fevereiro 2006



Natureza humana


As pessoas cada vez me desiludem mais no que acabam por demonstrar ser: egoístas. Encontrar alguém que ande neste mundo e que não pense apenas em si é já algo de raro. O egoísmo alastra-se a tudo e todos. Eu, eterno crente na natureza humana, cada vez perco mais a fé em quem me rodeia, quase ninguém é o que mostra afinal ser porque no fundo todos parecem adaptar-se aos outros apenas em função de si. Amor, amizade e felicidade parecem palavras votadas ao esconso domínio do EU.




Na minha graphonola:


Ohm Square
Love Classics




O Inverno é a estação do frio; não só o frio que enregela os
animais, mas também o frio de cujo significado profundo e
interior nos apercebemos apenas em raros momentos de
medo ou de solidão.
A lua no inverno e a chuva fria no fim do outono evocam
diferentes sensações. Mas é a neve que no seu leque de
significados e variedade de tratamento corresponde às flo-
res de cerejeira na primavera, ao cuco no verão e à lua no
outono. Apesar das tarambolas, mochos, águias e aves
aquáticas, a poesia do inverno é sobretudo a poesia da
imobilidade e do silêncio.

Matsuo Bashô




Travel Series #54


Praga
Catedral de S. Vito



Travel Series #53


Praga
Catedral de S. Vito



"Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida", acho um bom lema para enfrentar cada novo dia quer o céu esteja azul ou cinzento, quer chova ou faça sol. Estou farto de cada dia ser apenas a sequência de um outro anterior e tudo exista em consequência disso, apenas e só uma continuação do que foi. Carpe Diem?






O Primeiro Dia
Sérgio Godinho


A principio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vazia
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida