< Miradouro da alma: Pensar um nome

17 março 2006



Pensar um nome


Para falar de uma ilha não há
um nome único. é preciso dizer casas
e telhados, um cemitério ao fundo
onde algures a água pode chegar
- essa água sempre girando à volta
dos olhos dessa mesma gente
abatendo o pó das mesmas ruas
e enxotando as mesmas crianças
das mesmíssimas soleiras de porta.

pensar um nome sem árvores
ou um bom punhado de velhos no jardim municipal
e oferecer o seu gosto salgado
ao paladar do turista exigente
farto da cor do mar sem o beijo do céu
e atento ao ritmo do xaramba
- a madeira saberia a alumínio
batido na ombreira
dos dias mornos
derretendo nos bois a canção dos vilões
curiosos dos limites das montanhas
e da maneira como morre o sol.

no interior das casas cheira a cal
e à pedra mole onde dormem os séculos.
o cimento e o andaime vão chegando
derradeiramente comandados pelos amantes da areia
e vão cobrindo de tijolo o espaço do calhau

- apetece rebentar na cabeça do silêncio
este amor pelas coisas antigas
a saudade das mãos cansadas
e de saborear a terra sem flores murchas.

a ilha é um nome verde
sonhador de uma manhã de versos
onde caiba um poema de planícies eternas.


José António Gonçalves

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