< Miradouro da alma: Palavras trocadas

07 março 2006



Palavras trocadas


Palavras da Textura
num comentário em 25/02/2006:



pensas na vida cego para a cegueira
ingenuamente
aceitas tudo
e não aceitas nada

como eu

como outros

pensas muito na vida


pensas mais na vida
do que é desejável.
dir-te-iam as naturezas-mortas

como a mim

ou a outros

dir-te-iam
(que é por isso que deitas as histórias fora)
que esquecesses a histórias
dos teus pais

elas estão mortas
não têm
pais
também se estivesse morta
te censuraria

mas assim
não

assim apanho as histórias do teu chão
e conto-as para mim

como outros

e não me rio das tuas tristezas
e caligrafia torta

pelo menos eu não me rio
nem por fora nem por dentro

contento-me com os joelhos esfolados da tua infância

penso na tua vida como na minha
como outros

não largues todas as histórias
ao vento

isso é tudo despeito
das naturezas-mortas




E sobre as palavras dela,
as minhas palavras:


Não sou, como dizes
um pensador da vida
sou, antes, só por mim
o pensamento da vida
é ela que me pensa
Eu não me dou a esses luxos
de despeitar o tempo
em pensamentos que não fixo,
na vida que se foi;
Não é arrogância,
são apenas dores,
dores e o sofrer escritos
nas histórias lançadas
nos braços do vento
nesses dias de negritude.

Não queiras tais histórias
pejadas de laceração
cortar-te-ás também
no gume das palavras atiradas
estilhaçar-te-ás nos fragmentos
das lágrimas feridas
daquele azul-profundo
(que, bem sabes, odeio
tanto quanto amo)

Ri-te! Ri-te!
Não me importa porquê
Ri-te apenas
na facilidade dos risos puros
Ri-te! Não sabes que
o riso é alimento da alma?
Deixa-me , por favor,
respirar um pouco de ar
descançar esta alma viandante
sofrega de tempo e de viver
faminta de luz
e da loucura incontrolada
do riso simples


E não te preocupes
com as minhas histórias
órfãs no vento
filhas já velhas
do tempo
não são, na verdade,
vontade de despeito
pelos dias de antes;
terão sempre algo que nunca
deixarei de amar:
os sonhos falados
os projectos feitos de tudo
e de nada (não serão estes também sonhos?)
o reflexo do luar nas tardes incontidas
e o riso puro
pertença por direito natural
aos portadores
de almas grandiosas.


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