< Miradouro da alma: Poesia é coisa clandestina

10 fevereiro 2006



Poesia é coisa clandestina



Poesia é coisa clandestina
Feita no húmus da sombra quieta,
Mesmo quando o sol a ilumina
Ela se esconde, faz-se menina
Em faixa silenciosa de um só verso
E apenas se a paixão sobe e domina,
O amor, o ódio, o medo, a liberdade
Grita ela seu grito, berra seu berro.

Mesmo aí continua clandestina
Pois seu grito fere o vento
Em piano muito acima da cidade
E a multidão pega o dilúvio,
O estranho ruído, o tom, a rima,
A queda súbita de ritmos
Descendo como chuva e como chuva
Entrando pela terra em nascimentos.

Poesia é coisa clandestina
Como o umbigo, o ventre, a semente,
Como o toque do sexo na vagina,
Como o pouso do sonho sobre a gente.

Poesia é fogo clandestino
conservado no laivo da noite,
Inquieta paciência de menino,
Tonteira lúcida, vôo sem asa, açoite
Tombando sobre as sílabas pressagas,
Poesia é gosma, lama, terra,
Fonte, correnteza, é água
Do batismo, é água em jorro
Permanente de entrega, destino

De estar no ser e ser o ser, repousa
Na lava rubra descendo o morro.
Poesia é claro desatino,
Poesia é dar o nome a cada coisa.


Antonio Olinto

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