< Miradouro da alma: Re:

13 janeiro 2006



Re:



Como poderia
alguma vez ter partido
Se aqui nunca estive.
Fui talvez uma ideia
um pensamento fátuo,
uma criação tua
em noites opacas de cristal
noites alucinadas
absolutas negras noites sem sonhos.
Nunca serei uma memória
recuso-me a tal,
renego-me a ficar em baús,
caixas ou o que for,
fechado na espera de um capricho
num egoísmo que abra o tempo
e me olhe,
como se fora selo de colecção,
misturado por entre outras memórias
de que não faço parte,
desconhecido.
Serei sim o vento
ou a fúria da tempestade
o raio
ou furacão,
talvez a brisa
talvez uma lágrima de azul
perdido na tristeza de um olhar.
Repousarei, então, da eterna viagem,
do dia que em ti parti,
quedarei em sal doce
nos lábios entreabertos
rasgados num sorriso de tempo
de uma imagem que ficou.



4 Comentários:

Blogger Morpheu escreveu...

Para que não haja confusões: -a referência a "noites de cristal", no poema, nada tem a ver com esse acontecimento infame e vergonhoso ocorrido na noite de 10 para 11 de Novembro de 1938 e executado pelas tropas nazis.

13 janeiro, 2006 13:05  
Blogger yin 2 escreveu...

As recordações fazem parte de nós. "Fechá-las em caixas" é apenas uma expressão que não faz muito sentido. No fundo, elas estão sempre presentes, não são revisitadas, não se misturam entre si. Na verdade, basta uma brisa para nos recordarmos. Ou, às vezes, até menos que um brisa.

13 janeiro, 2006 17:35  
Blogger textura escreveu...

As pessoas das fotografias colonizam o escuro das gavetas
Poses admiráveis e mãos grandes demais
Como em quadros do Schiele
e também nuas
ossudas
intermináveis caminhos
das pernas aos pés
dos pés
dessas mulheres

Existem?

As fotografias das pessoas vivem em molduras naperons deformados
em cima das televisões
ao lado de telefones de discar e jarras de flores artificiais
aparadores com nomes monárquicos
quem contempla o mundo em
cima de um electrodoméstico
já não é verdade

As pessoas
acontecem
não repousando logo
como a poeira
nos sapatos pretos

São levadas
por outras pessoas
junto ao peito ou num bolso interior

(Não sei o que estou a dizer,
que acredito mais no que não vejo)


Ecos surpreendem os desprevenidos
em sorrisos enleados
e decantados
no meio da semana
de trabalho
por exemplo
em situações de trânsito

A força de torcer os cantos dos lábios em vírgula
não é
predominantemente
mecânica
e as fotografias
são testemunhos falsos
porque pensam
que não se morre

13 janeiro, 2006 21:41  
Blogger textura escreveu...

é simplesmente tudo muito frio e branco nesta altura do ano.
o tempo e o silêncio são diferentes no frio.
:)
engraçado não é?
falamos de memória e estou eu anónima cibernauta, em lugares que pertencem à tua.

Cumprimentos

13 janeiro, 2006 22:14  

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