< Miradouro da alma

03 janeiro 2006




O copo voou estilhaçando-se em pequenos pedaços de vidro baço, lascado, espalhado pelo chão; não percebi o porquê daquela explosão, daquele impulso de que fui obrigado a desviar-me; não, possivelmente até percebi mas já não tenho certezas de nada, foi já o tempo em que sabia ler nos olhos o que os lábios não queriam dizer. Um dia ceguei-me para que não me doesse mais para que não provocasse mais dor, porque poucas vezes consegui mais do que dor em tudo o que li nos olhos.
Baixei-me para apanhar os cacos, sem me importar com o facto de estar descalço porque a dor também não me é estranha no ser, como escreveu o Pessoa acho que está é entranhada e talvez daí o porquê do Cântico Negro, do José Régio, ser parte de mim. Sei as dores que provoquei, nunca voluntariamente, apenas porque amei demais, mas também tenho coração, também se me queimou o peito, também sofri; ninguém ouviu, nunca.
No fim fico apenas eu neste espaço, sempre; engulo em seco, mais uma vez, enquanto aperto nos vidros a dor que se esvai no sangue.

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