< Miradouro da alma: 2005

30 dezembro 2005



2005



No final deste ano e fazendo uma revisão são dois os poemas que resumem estes 365 dias: o primeiro é o Cântico Negro, do José Régio, que me acompanha desde há muito; o segundo é simplesmente o poema que simboliza, para mim, estes 365 dias por tudo o que de melhor dele tive e pelo qual posso dizer que 2005 foi o ano da Lua, é um poema com dedicatória.




Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio






Lua Encantada


O que daria eu por um beijo do luar
nesta noite escura da vida,
sentir a sua doçura de seda,
a sua beleza de encantar...
Gritei, angustiado: -Oh Deus, porquê?
Porque não há esta noite luar?
-A lua não é tua, porque a queres?
Porque tanto lhe desejas tocar?
-Oh Deus, porque a perdi,
é escura a noite sem o seu brilhar
e eu desespero porque no seu toque
me enamorei e comecei a sonhar.
-Louco! Só os deuses podem sonhar!
-Louco seja, mas como farei agora
sem a sua luz para me guiar?
Caminho no tempo sem fim,
Sem rumo, sem caminho algum,
Sem a lua para me iluminar...
E se só os deuses podem sonhar
Porque me permitiste o seu toque,
Porque me deste o seu doce olhar?

da escuridão fiquei sem resposta,
resta-me a noite apagada
sem o brilho das estrelas
sem a doçura do luar...


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