< Miradouro da alma: Tempos de vazio

17 novembro 2005



Tempos de vazio

Sinto-me cada vez mais vago nas palavras que escrevo e em que busco um sentido que já não encontro quase nunca: estéril é talvez a palavra em que me esbato e com que me degladio. Sempre senti a escrita como um quadro que vou construindo, por entre pinceladas, paletas de cores, tonalidades, luz e sentimentos. Cada vez que me apetece criar inicio os primeiros traços, faço um esboço, e logo a criação grita que lhe falta coração, paixão, raiva, amor, ódio, enfim que se sente órfã e num rápido golpe acabo por afundar a lâmina no corpo acabado de gerar e o crime dá-se restando apenas mais uma lápide alva de vazio, no cemitério imenso que criei.
Por vezes pode até sentir-se algo mas não é suficiente, não basta, porque só os sentimentos que arrebatam a alma e a incendeiam são verdadeiramente importantes.
E, no nada, o tempo passa ficando um vazio de dias e uma plenitude desértica que se estende para além do que a vista alcança.
Quanto tempo tem o tempo? Só o coração ou a alma o saberão, na verdade, porque nunca aprendi a contabilizar o nada no tempo.

0 Comentários:

Enviar um comentário

<< Home